O Globo - 04/05/2004
"Cantoras buscam se renovar na MPB"
Guzzi: Guzzi Woolley
por Hugo Sukman

Cantora brasileira, hoje, ou é uma Monica Salmaso - timbre único, técnica perfeita, pegada estilística e repertório raro - ou tem um problema. O que fazer para se diferenciar numa floresta selvagen de timbres parecidos, estilos que se copiam, técnica pasteurizada nos pro-tools da vida e repertórios que buscam agradar a um mercado hipotético?

Cercada pelos melhores músicos de São Paulo
Em "Guzzi" (selo Maritaca), a cantora (e flautista, violonista, compositora) está cercada por alguns dos melhores músicos de São Paulo, dirigidas pelo flautista Mané Silveira. Consistente, na hora de cantar músicas dos outros não faz por menos: vai de Dori Caymmi ("Alegre menina" em duas versões diferentes, uma levíssima, outra mais lenta, brasileira, cheia de invenções), Tom Jobim (um "Outra vez" delicadamente rearmonizado pelo pianista Tiago Costa, com direito a scat de Guzzi) e Cole Porter (um "You do something to me" jazzístico, com Mané Silveira tocando todo o naipe de saxofones).

Influenciada por Jane Duboc, no timbre e na musicalidade, e filha do baixista de jazz Pete Woolley, mostra-se compositora de pendor bossanovista ("
Primeiro amor"), sambístico ("Jobim", de letra programática "Sei que não tenho tanta ginga / E não faço mandinga / Mas ouço os grandes mestres"), e de ricos temas instrumentais ("Mãos de artista", que leva na flauta, e o lindo samba "Aos anjos"). Grande revelação na vertente mais sofisticada da música brasileira.

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