Gazeta Mercantil - 14/05/2004
"O vôo da Maritaca"

www.investnews.com.br - sábado 15/05/2004
por Sérgio Fogaça

Selo completou 7 anos e passa também a distribuir seus títulos de qualidade.

Novos lançamentos. No sentido horário: Filó Machado,
Léa Freire, Arismar do Espírito Santo, Guzzi e Theo de Barros.

Não é incrível que ainda tenha gente dizendo que não acontece nada de novo no cenário da música brasileira ! Na verdade, depois que o processo de gravação tem passado para as mãos do próprios artistas, nunca se produziu tanto. É a força e determinação do mercado independente. Dentro dele, uma infinidade de artistas e selos se organiza e ajuda a propagar o que vem sendo alardeado por todos os cantos: o Brasil tem a melhor produção musical do mundo.
Uma das contribuições mais generosas vem do selo e editora Maritaca, que completou sete anos, e agora também passa a distribuir seus títulos. É uma nova fase que só faz aumentar sua independência. Comandado pelas mãos sensíveis e determinadas da flautista e compositora Léa Freire, o selo acaba de lançar mais quatro títulos, completando 11 ao todo, além de dois cadernos de composição, com partituras, da editora. Tudo da melhor qualidade artística.
A história da Maritaca começou em 1997, quando Léa resolveu unir suas duas habilidades: a de musicista e a de administradora de empresas. Ela trabalhou durante 11 anos como diretora financeira e gerente de informática de empresas. O primeiro trabalho lançado foi um de sua autoria. O CD "Ninhal" de 1998, trazia participações de Joyce, Filó Machado e Banda Mantiqueira. Na época e até dois meses atrás, a distribuição era feita por seus parceiros da gravadora Núcleo Contemporâneo.
Depois de "Ninhal", o selo começou a produzir outros dois trabalhos. Um da pianista Silvia Góes, chamado "Piano à Brasileira" , e outro do francês radicado no Brasil, Tibô Delor, com o álbum "No Tom da História", interpretando músicas de Tom Jobim no seu contrabaixo. Ambos foram lançados em 2001. No mesmo ano ainda o selo trabalhou o lançamento do CD "Caderno de Composição", do pianista Mozar Terra e colocou em prática outra idéia própria de bons músicos.
Quem é instrumentista no Brasil sabe que o País é pobre em partituras. Por isso, todo mundo bebe em fonte estrangeira, consultando os Real Books, que trazem, em sua maioria, temas americanos. Também, para difundir o próprio trabalho, Léa Freire lança cadernos de composições com partituras relacionadas a CDs já lançados pela Maritaca. São dois até agora. Um do trabalho de Mozar Terra e outro de mais um título do selo, o CD "Quinteto" com os músicos Teco Cardoso, Benjamim Taubkin, Sylvio Mazzuca Jr., AC Dal Farra, além da própria Léa. Antes de mencionar os mais recentes trabalhos, vale ainda destacar outros dois títulos lançados pelo selo. Um é "Estação Brasil", do contrabaixista Arismar do Espírito Santo, e "Porto dos Casais", do baterista Nenê.

Canta, Maritaca
Lembrando que dispensa rótulos, o selo, que até então só havia gravado temas instrumentais, passa também a lançar títulos de cantores. E não economiza nas novidades. Para começar, tem o excelente compositor e violonista Theo de Barros, que também aparece cantando nesse trabalho superautoral. Depois de ter se consagrado nos festivais dos anos 60 com a música "Disparada", em parceria com Geraldo Vandré, vencedora do festival de 1966, Theo surpreende apresentando cerca de 150 composições feitas nos últimos três anos. Dessas, 16 estão no recente trabalho.
Entre elas há parcerias com Paulo César Pinheiro, como "Angola" e "Suite das Sete Violas", Amor de Poeta, com Cristina Saraiva, além de "Natureza" e "Meu Retrato", com música e letra de Theo. Entre as importantes participações especiais do CD estão os intérpretes Renato Braz, Monica Salmaso e Tatiana Parra, além de apresentar seu filho, Ricardo Barros, que canta e também mostra música de sua autoria, "Zé Menino", em parceria com Conrado Goys.
Do eterno consagrado para o inédito. Filha do contrabaixista Peter Woolley, Guzzi solta sua voz jazzística em 11 faixas neste seu trabalho de estréia. Também com músicas próprias, a cantora começa e termina o Cd com "Alegre Menina", de Dori Caymmi e Jorge Amado. São duas versões distintas, na instrumentação e no canto. Prova de versatilidade. Já de sua autoria, a cantora mostra "Primeiro Amor" e "Song for Nina". Como não poderia deixar de ser, sua ambientação jazzística se mostra bem em "You do Something to Me", de Cole Porter, e "Outra Vez", de Tom Jobim, outro ídolo confesso.
Será que é possível um disco ser percussivo sem a presença de instrumentos de percussão? Pois esse é o resultado de "Jazz de Senzala", de Filó Machado. Um gênio da percussão vocal, Filó vale-se de sua apuradíssima técnica e emoção para encher de variadas cores sonoras todas a faixas desse CD, que também traz um leque saboroso de cordas. Os temas vão desde músicas autorais, como "Laurence", "Fada" e "Jazz de Senzala", até as boas escolhas de canções mais consagradas, como "Procissão", de Gilberto Gil, "Notícias do Brasil", de Milton Nascimento e Fernando Brant, além de "Aqui, oh!" e "Pedra da Lua", ambas de Toninho Horta, uma com Brant e outra com Cacaso, faixas que contam com a participação do compositor.
O último lançamento vem cumprir papel fundamental na discografia brasileira: a idéia de tornar disponíveis trabalhos que estavam fora de catálogo. A justiça foi feita aqui com o disco de estréia do virtuoso contrabaixista, na verdade, multiinstrumentista e compositor, Arismar do Espírito Santo. Lancado em 1994, o Cd homônimo, que agora ganha o subtítulo "10 Anos", foi o vencedor do Prêmio Sharp como melhor disco instrumental daquele ano. No repertório, músicas de sua autoria, como "Fulô", "Seu Zézinho" e "Neguinha". Dos clássicos mais conhecidos, Arismar gravou "Lamentos", de Pixinguinha e Vinícius de Moraes, e "Luz Negra", de Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso. As participações de convidados foram especialíssimas. Estão lá Jane Duboc, Hermeto Paschoal, Edson Montenegro e Heraldo do Monte. É como trazer grandes espetáculos para dentro de casa.

Ativista musical
Léa Freire é uma dessas pessoas que transpiram a confiança e a alegria de quem faz o que quer. Tem pulso firme e dedos leves. Ao mesmo tempo em que a administradora vai aparecendo aqui e ali, o olhar livre e feliz revela melhor a musicista que, ágil, escorrega seus dedos pelo instrumento. Nasceu em família musical. "Nunca parei para pensar o que seria quando crescesse". A música já era fato desde sempre. Foi matrícula número 4 da famosa escola de música CLAM, dos integrantes do Zimbo Trio. "Comecei aprendendo violão com o Luis Chaves, do Zimbo Trio, depois meu pai me deu uma flauta". Tudo isso ainda na adolescência.
Foi crescendo e tocando sempre com grandes nomes por perto. Sua determinação pedia para estudar fora do País, mas, antes disso, foi parar no Jogral, boate que abrigava a nata da música brasileira em São Paulo. "Fui sempre muito sortuda. Precisava arranjar dinheiro para viajar e fui tocar no Jogral. De cara, caí no regional do Evandro, um dos melhores bandolinistas do País. Mas ali conheci e toquei com muito mais gente bacana."
Embarcou para os Estados Unidos com destino à Berklee College of Music. "Fui para ficar quatro anos e fiquei duas semanas lá. Não gostei." Determinada, seguiu para Nova York e permaneceu um ano e meio na metrópole. "Foi muito bom. Conheci o Guilherme Vergueiro e gravamos parte de seu primeiro disco lá, chamado "Naturalmente". Depois que voltei, ainda fizemos muitos shows juntos."
Em determinada altura da vida, casou, teve filhos e se adaptou à nova fase. "Precisava trabalhar para sustentar os filhos e fui para uma empresa de Piedade, no interior de São Paulo. Primeiro como teletipista, depois numa área de vendas e, como sabia bem inglês, colocaram um computador na minha frente. Já como diretora financeira, fui para Sorocaba, onde havia escolas melhores para meus filhos, e também estudei. Fiz administração de empresas".
Junto com os filhos, crescia a vontade de voltar a tocar. "Esse foi um período em que toquei muito pouco". De volta a São Paulo, foi construindo novamente sua carreira. Ao longo dela, tocou com incontáveis personalidade musicais. Para citar algumas, Léa já tocou sua flauta com Hermeto Paschoal, Alaíde Costa, Djavan, Arrigo Barnabé, Isaurinha Garcia, Nelson Ayres, Leny de Andrade, Carlos Poyares e Bocato, entre tantos outros. Aliás, as próximas produções em curso da Maritaca incluem um Cd de baladas, com interpretação do trombonista Bocato, tocando músicas de Ary Barroso, Tom Jobim, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues, entre outros. Também está sendo produzido um Cd com o contrabaixista Thiago Espírito Santo, filho de Arismar e Silvia Góes.
Daí para a frente é tudo música. Seja produzindo, tocando, distribuindo ou divulgando, Léa Freire é um belo exemplo do músico moderno. O músico que faz tudo com as próprias mãos.
Site da gravadora: www.maritaca.art.br

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